24 agosto 2007

Anos incríveis


Do nosso acervo: o primeiro registro fotográfico disponível dos então imberbes e promissores editores da neonata revista Graffiti: Rafael Soares e Fabiano Barroso.



Foi mal amigos, mas eu tinha que mostrar isso. Trata-se de um período fértil da Graffiti, de idéias e emoções. Da esquerda para a direita, Daniel, Erick Azevedo, Marcos Malafaia, Andrei Goulart e Piero, todos muito felizes.

23 agosto 2007

O Ex-Quadrinista



Após longo inverno sem dar as caras por aqui (que blog é esse que ninguém posta nada?) eis que voltamos cheios de vigor, fome e vitalidade (será?), tal qual um urso que sai para fora da caverna depois de hibernar.

Estou trabalhando em uma exposição (espero que não seja segredo, Afonso e Roberto...) para o próximo FIQ, que se realiza em outubro, aqui na Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte. A exposição tem um tema muuuito abrangente: o quadrinho mineiro underground dos anos 70. Você já ouviu falar nele? Talvez não, mas pelo menos um autor tem muita credencial, senão nos quadrinhos, nas artes plásticas com certeza.

Marcos Coelho Benjamim é respeitado, conceituado, premiado, como pintor, gravurista, escultor, autor de formas e conceitos improváveis. Como quadrinista, porém, ele é o "autor que não foi". Promissor, precoce e vencedor do Salão de Piracicaba na época que este ainda engatinhava, no início dos 70, Benjamim era fã de Krazy Kat, Crumb e Batman, e eram estas as suas influências. Mas rapidamente se desvinculou delas, e começou a decolar sozinho, com um quadrinho que, segundo ele próprio, não era político, como muitos de seu tempo, mas simplesmente aéreo, contemplativo, indefinido. Flower power, enfim. E assim foi, publicando ora no Pasquim, ora nas revistas mineiras Uai!! e Meia-Sola, sempre ganhando admiradores cada vez mais atônitos com a envergadura de seu trabalho. E quando todos se preparavam para ver o surgimento do melhor quadrinista da história, eis que Benjamim abandona os quadrinhos! e se torna, como escrito acima, um grande artista plástico.

E aí vem a pergunta (que ele mesmo se faz de vez em quando, eu sei): "O que aconteceria se...?

24 julho 2007

C’é l’Avanguardia a fumetti? (2)


Então, em um exercício rápido, vamos às histórias desta Canicola número dois:
“Brodo di niente” (algo como “Sopa de Nada”), de Andrea Bruno, tem uma arte-final interessante. Grandes manchas de nanquim, como se a página estivesse borrada, criam os desenhos. A atmosfera é etérea, o mundo parece acabar. O personagem passeia por um bordel, pela rua, por um sonho de cemitério.
“L’albero delle scimmie” (“A árvore dos macacos”), de Edo Chieregiato e Michelangelo Setola, é a mais “carina” de todas, diriam os italianos. Ou seja, a mais bonitinha. Não tanto pelos desenhos, sujos e guturais, que recordam animações de Beavis e Butt Head. Mais pela linearidade da história de uma família que passa férias na praia, em meio a uma greve de fabricantes de cigarro - o que torna tudo bem estressante para o pai.
“I Vicini di casa” (“Os vizinhos”), de Giacomo Monti, traz uma aventura cotidiana, por meio de quadros esparsos pela página, criando composições irregulares. Os desenhos, pequeninos dentro dos quadros, criam uma sensação de vazio e solidão. Um sujeito se depara com um gato morto na porta de casa e inicia laboriosa jornada para saber se ele é de alguém do prédio. O resultado é uma reação típica em nossos tempos. Me parece que esta melancólica história se baseia em fatos reais.
“Fas”, de Davide Catania, é uma história sem texto, desenhada com giz de cera, o que confere bastante expressividade à arte. Mais à frente, temos “Nefas”, do mesmo autor, e que parece conversar com a anterior.
“Baobab”, de Amanda Vähämäki, a mais bela história de Canicola, tem narrativa apátrida, fora do tempo e do espaço, beirando o surrealismo. Os dois personagens, duas crianças, são senhoras de um mundo irreal. Lá, desdenham de adultos, conversam com gatos, se relacionam. Parece um filme do Kurosawa.

“L’asino e la capra” (“O asno e a cabra”), de Giacomo Nanni, deve tratar-se de uma fábula moderna. Não encontrei nexo - o que talvez signifique que não era mesmo para ser encontrado - e a arte não me seduziu.
“Provino” (“Prova”), de Alessandro Tota, recorda Andrea Pazienza. O autor, provavelmente, é fã e discípulo. Acho, porém, que Pazienza construía histórias meio sem pé nem cabeça porque ele realmente não sabia que fim dar a elas. Era algo original e sincero, ao contrário da obra de Tota.
“Um nome stupido”, história soturna, em grandes quadros, que me lembrou o trabalho do Paulo Barbosa (que publica na Graffiti). Bonita, e encerra o volume.

Depois que fiz este texto, percebi - e acho que deve ser óbvio, ao menos para o público italiano - que as histórias tratam de um tema, ou mais precisamente, de um estado de espírito. Um ritmo. Todas elas têm um mesmo ritmo, uma mesma pulsação. A revista saiu, segundo indica o editorial, no outono. No outono, lentamente, caminhamos para a escuridão do inverno. Tudo a ver com as histórias desta revista. Será que este é o tema, portanto? Outono? Ou será que eu é que encontrei - inventei - esta similaridade casual?

Talvez, ainda, seja esta a “vanguarda” que nos perguntam os editores, no início da revista, em tom desafiador.

C’é l’Avanguardia a fumetti?



É a pergunta que a revista italiana Canicola faz, a seus leitores mas também a si própria, no editorial de seu número dois. Existe vanguarda nos quadrinhos?

Antes de mais nada, é preciso apresentar: a Canicola é uma revista em formato A4, capa em papel ap encorpado, em duas cores, e miolo em ap mais fino, preto e branco. Traz nove histórias, de autores e estilos bastante diferentes entre si. Tudo indica que é uma publicação independente (ocorre lá também).

Agora, à resposta: não sei se existe vanguarda em quadrinhos, até porque o termo (consultei a enciclopédia) tem um significado vasto e irregular. Mas a Canicola é, em todo o caso, uma revista bonita, séria, de quadrinhos elegantes e variados. Há, sim, muito experimentalismo - técnico e narrativo. O resultado é uma publicação bem fora dos padrões comerciais - o que lhe confere, creio, a classificação de “underground”. Acho, entretanto, que os autores - os nove - não têm lá grandes pretensões no sentido de alterar o curso da história - a vanguarda deveria ter, certo? As histórias apenas entretêm, divertem, passam o tempo. Algumas fascinam, pelo acabamento apurado. Ok, de vez em quando fazem refletir.

Pode-se conferir algo mais da revista no site www.canicola.net

17 julho 2007

Tintim e os nossos tempos

Segundo noticiaram diversos blogs e sites de quadrinhos, a Comissão para Igualdade Racial, na Inglaterra, ordenou que as livrarias parem de vender "Tintim no Congo", álbum de estréia do célebre repórter belga, criado por Hergé. (No Brasil, foi publicado com o nome oportuno de "Tintim na África".)

A medida foi desencadeada por um sujeito que, visitando uma livraria com a família, se deparou com o conteúdo do álbum e o denunciou aos balconistas como sendo racista. De fato, a história de "Tintim no Congo" insiste na imagem clássica - sobretudo nos anos 30 - do branco dominante e do nativo ignorante, ingênuo e submisso. Por duas vezes, Hergé e seus editores tiveram de fazer alterações na história.

Duas coisas sobre o Tintim no Congo e sua proibição:
1. Não acho correta a proibição. Ok, pode-se plastificar o álbum, vedando-o, e fazer uma advertência na capa, dizer que o conteúdo do produto traz mensagens colonialistas, subversivas, impróprias, sei lá. Pode-se, também, contextualizar o leitor com uma introdução. A Bélgica, à época, era um país colonialista. O Congo era uma sua colônia, e isso era, senão imoral, perfeitamente aceitável do ponto de vista dos direitos internacionais. Não se trata, com isso, de justificar ou inocentar o autor, Hergé. Mas, à luz dos tempos, Tintim no Congo é hoje uma obra histórica, um documento de época, podendo ser analisada como tal. Existem incontáveis documentos e obras de cunho colonialista, pró-escravagista, fascista, nazista, racista, anti-semita e toda a ordem de amoralidades. Não se deve proibi-los, e sim contextualizá-los devidamente, para que sirvam de objeto de estudo.
2. A obra de Hergé explicita sua posição colonialista perante o mundo. Tintim é um civilizado, um correto, um modelo. A Sildávia, em "O Cetro de Otokar", por exemplo, está prestes a sofrer um golpe de estado. Querem derrubar o rei. E não é que Tintim intervém em favor do rei, em prol de manter a ordem prestabelecida? Não importa, para a história, se o rei é um monarca absoluto, um ditador. Importa apenas que Tintim vai salvar aquela gente do pior. É a mesma coisa com os congoleses: acreditem em Tintim, pois ele vem da Bélgica, país civilizado, avançado, rico. Sigam-no e vocês vão se dar bem. Esse gênero de personagem, que representa ideais e sentimentos de uma inteira nação, ficou conhecido nos quadrinhos como "o herói". Nos comics americanos da época, ele se traduziu na figura do Flash Gordon (1934) - que, ao contrário de Tintim, quer é derrubar o imperador, o maligno Ming (não, seus traços orientais, seu nome, seu quimono, seu bigode afinado e o nome de seu planeta - Mongo - não são mera coincidência). Outros personagens dos comics também trazem estas características: o "Fantasma", de Lee Falk (1936) é o senhor imortal de uma ilha distante, Bengala. Assim como Tintim, ele domina e educa os nativos - no caso, os pigmeus. Tarzan também é o rei branco das selvas. A mensagem de todas estas HQ's, todas clássicas, todas maravilhosas, é sempre a mesma: o mundo está errado, e só o herói poderá consertá-lo. Este mundo pode ser as fictícias Bengala ou Mongo, mas também pode ser um real Congo - e aí reside a diferença da obra de Hergé para os comics, contemporâneos seus. Hergé pecou ao colocar seu nacionalismo colonialista em nosso mundo, palpável e real. Um avião, um trem, ou mesmo um ônibus, separam Tintim do mundo certo e do mundo errado. Os comics, espertamente, expediram o mundo errado para além deste planeta, ou para confins inexplorados e selvagens. Porém, os personagens destes mundos são os mesmos personagens que habitam o Congo, a Sildávia ou a corrupta América de Tintim. Estão apenas disfarçados, travestidos. Por isso, considero um tanto hipócrita condenar Hergé - e somente ele. Os quadrinhos desta época - que é considerada a época de ouro dos quadrinhos - são revestidos de graves e explícitos indícios de nacionalismo exacerbado, e refletem claramente a postura dos países que produziam estes quadrinhos.

Em resumo, eu jamais irei proibir meus filhos de lerem Tintim ou qualquer outro quadrinho. É preciso, apenas, situar o leitor, para que ele não seja levado pela ignorância e pela irracionalidade.

Um Dia no Poppycorn


O album 'Um dia uma morte' foi resenhado ontem por Afonso Rodrigues do site Poppycorn. Reproduzimos abaixo um trecho:

100%Quadrinhos

A produção cultural independente existe para desvincular o produto de um sistema de acesso pelo público repleto de represamentos – a maioria deles ditados pelo mercado – que transformam o conhecimento e usufruto de determinados artistas em um verdadeiro martírio. O Brasil já descobriu este filão alternativo e, em alguns casos, a fórmula se mostra um sucesso: pululam por aí gravadoras de discos e editoras de livros que lançam no mercado uma produção cultural que termina por dar visibilidade a alguns artistas que no “esquemão” não teriam chance alguma, além de ter como linha geral, um respeito profundo à liberdade de criação, dando visibilidade àquilo que foge do padrão comercial. É neste nicho que a idéia das produções independentes se segura, já que permite aos artistas um maior conforto para que aconteçam as rupturas e a renovação das linguagens. É neste formato que a revista Grafitti 76% Quadrinhos, publicada em BH, trabalha desde 1995 e já publicou 16 exemplares com uma interessante amostragem de histórias em quadrinhos alternativas de autoria de artistas brasileiros, juntamente com entrevistas e outros assuntos, tendo sempre um material interessante para oferecer ao público.
Uma coisa é certa no projeto do grupo que coordena apublicação: privilegia-se o criativo. Conheci esta revista quando fui ao 6º. Salão do Livro na capital mineira, e virei um fã. Hoje estou aqui para comentar (e festejar) uma nova frente aberta pelos idealizadores desta publicação: o lançamento da coleção 100%Quadrinhos, uma série de novelas gráficas, que pretende lançar pelo menos dois números anualmente, sempre trazendo HQs produzidas por artistas nacionais.
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http://www.poppycorn.com.br/artigo.php?tid=1593