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27 janeiro 2008

Il maestro e il genio


Para quêm ainda não viu (já estão circulando ha um tempo) recomendo dois videos com personagens fundamentais das hq: o primeiro apresenta uma entrevista com Hugo Pratt, mestre não apenas pelas historias e desenhos, mas também por sua filosofia e por ter renovado os quadrinhos com narrativas cinematográficas e com a introdução da figura do anti-herói, aproximando as hq do conceito de literatura por imagens. Na entrevista (em francês), Pratt fala da importância da pesquisa como embasamento para uma boa história.
O outro vídeo apresenta uma performance de Andrea Pazienza, autor genial e desenhista incomparável, produzindo um painel mural com um leão atacando dois cavalos.

24 janeiro 2008

Parla come mangi...

... ou seja, fala do jeito que você come!
Micro-glossário de vocábulos italianos relacionados aos quadrinhos.
- Fumettaro: termo levemente depreciativo que pode indicar tanto o produtor imberbe quanto o consumidor compulsivo de hq.
- Nuvoletta: indica o balão da fala. O termo pode ser empregado para não criar confusão com a palavra fumetti, que indica também as histórias em quadrinhos de forma geral.
- Sceneggiatura (tsenedjatúra): roterização, no sentido da elaboração visual da narrativa por meio de enquadramentos, planos etc. (o story board, enfim). Geralmente é realizada pelo roterista, mas nem sempre: em alguns episódios de Ken Parker, por exemplo, Berardi assinou o argumento e Maurizio Montero a 'sceneggiatura'.
- Striscia (estrisha): a tira de hq. A diferença do Brasil na Itália os diários publicam principalmente charges e os autores se dedicam menos as tiras do que, por exemplo, ao quadrinho autoral.
- Vignetta (vinhetta): a charge propriamente dita. Entre os autores mais publicados nos diários italianos Altan, Forattini e Vauro. O termo pode indicar também um síngulo quadrinho.

23 outubro 2007

A oficina com Berardi no FIQ

O FIQ acabou. Segundo os organizadores o evento teve mais de 35 mil visitantes em 7 dias, número recorde pro festival que completa 10 anos de existência em BH.

Um ponto alto do evento foi a oficina com Giancarlo Berardi, roterista de Ken Parker, Julia, Giuli Bai & Co. e Tom's bar. O autor contou que a partir de 1974 renovou a maneira de contar quadrinhos abolindo as legendas e propondo una narrativa mais cinematográfica, junto a autores como Hugo Pratt, cujo personagem Corto Maltese foi criado justamente em Genova, cidade natal de Berardi. Durante cerca de dez anos Berardi renunciou às cervejas com os amigos e às saídas com a namorada para se dedicar à leitura, tendo lido um livro a cada noite. Graças a esta opção hoje o autor consegue produzir até 12 histórias simultaneamente.

Ken Parker começou como um episódio único (Lungo Fucile), pedido pelo Bonelli. Deu certo e a série continuou, mas os autores tiveram que tirar a barba do protagonista para rejuvenecer o personagem. Sobre a relação com o editor contou um caso: Bonelli pedia sempre um esboço do roteiro antes de liberar a produção. Berardi porém não utiliza este processo: inventa um pedaço da história a cada dia, ficando livre para aumentar ou diminuir o papel dos personagens e mantendo vivo seu interesse pela história (e consequentemente o do leitor). Assim as histórias prontas eram sempre diferentes do script e após uns quatro número Bonelli teve que desistir de cobrar o enredo e deixou livre o roterista.

Á inevitável pergunta 'Ken Parker terá continuação' o autor disse que só no dia em que um editor colocará o braço sobre seus ombros e dirá 'quantos episódios faltam? Cinco? Dez? Pode mandar ver, independente se vender ou não'. A série Ken Parker já foi interrompida duas vezes, no número 59 da primeira edição da Bonelli, devido à incompatibilidade entre os ritmos de produção da editora e a qualidade exigida pelo autor, e após 36 números do Ken Parker Magazine, experiência editorial até certo momento encabeçada pelos próprios Berardi e Milazzo com outro sócio (em seguida continuou com o apoio da Bonelli). Berardi disse que tentou vender o projeto em diversos países da Europa sem sucesso, inclusive pela incompatibilidade do traço expressionista de Milazzo com a predileção generalizada no velho continente pela linha clara característica da França.

Hoje Berardi trabalha com dois assistentes num escritório em Genova. Entre seus desenhistas preferidos indicou Trevisan, a jovem Laura Zuccheri e - naturalmente - Milazzo. O autor disse querer ajudar os jovens a correr atrás dos próprios sonhos. 'Os jovens deveriam ter em si a cintila da revolta' e não satisfazer-se apenas com a tecnologia e o baixo nível da mídia. Citando John Ford disse que 'entre a lenda e a realidade prefere contar a lenda'. A realidade do velho oeste não tinha graça: os pistoleiros fediam, atiravam pelas costas a um metro de distância e carregavam o revolver na cueca, o que acabava por gerar uma série de acidentes pouco ortodoxos... Durante o encontro Berardi foi disponível e consistente, brincou e promoveu reflexões, manifestando acreditar nos valores humanos pelos quais é bem conhecido entre os leitores.

08 outubro 2007

Andrea Bruno e Giacomo Monti



Os outros autores italianos desta edição são ligados a Canicola, grupo que promove uma revista com uma linha editorial experimental comentada pelo Fabiano em julho (c'é l'avanguardia a fumetti?)
http://graffiti76.blogspot.com/2007/07/c-lavanguardia-fumetti.html

Ercole


A Graffiti 16 será (é) bilíngue: português-italiano e hospeda alguns autores ligados á produção independente de lá. Maurizio Ercole, autor da hq Seryal Toys fala do underground numa entrevista para o encarte desta edição.

29 agosto 2007

Um homem chamado Ken Parker



O italiano Giancarlo Berardi vem ao Festival Internacional de Quadrinhos, em outubro. Alguém pergunta: "E daí? Quem é esse sujeito?" Tem razão. Berardi (infelizmente) não é tão conhecido sequer do público dos quadrinhos.

Bom, Berardi nada mais é do que o criador (juntamente com o desenhista Ivo Millazzo) de um dos personagens mais notáveis da história da HQ: Ken Parker, o anti-herói do faroeste, cujas aventuras foram chamadas certa vez pelo Piero de "western de esquerda".
As histórias de Ken Parker extrapolaram, desde o início, o gênero consagrado pelo cinema americano. Nelas, falou-se de segregação racial, homossexualismo, inclusão social, literatura, teatro... Sem perder de vista, claro, o cerne de uma boa história de western: a Aventura, com direito a duelo, tiroteio, perseguições eletrizantes a cavalo, índios, o Mississipi, o trem de ferro, o assalto à carruagem... Personagens de verdade fizeram parte da história, de Wild Bill Hickock a Buffallo Bill, passando pelo General Custer e por Sitting Bull. Como Corto Maltese (outro ícone da hq italiana), Ken Parker - cuja fisionomia é inspirada em Robert Redford - passeia filosoficamente por nosso mundo, experimentando-o, errando mais do que acertando, em busca de integridade e humanidade, em si próprio e nos que o cercam. Quer herói maior que esse?

A aventura de Ken Parker foi publicada, com interrupções, entre 1977 e 2001 na Itália, em edições mensais, quase sempre pela Bonelli. Sob a justificativa - aceitável - de que era extremamente difícil manter a qualidade de uma história tão longa e com prazos tão apertados, a dupla Berardi-Millazzo decidiu cancelar a série, apesar de aceitar a ajuda de colaboradores ao longo da árdua jornada. Assim, o destino de Ken Parker não teve uma definição, ao menos para nós leitores. No final, Parker, profundamente decepcionado com a sociedade, torna-se um criminoso e um apátrida. Em suas últimas aventuras, o vemos fugindo insistentemente da Justiça, com chances remotas de se redimir.

Por isso, certamente Berardi já tem na ponta da língua a resposta à pergunta que eu lhe farei durante o FIQ: Ken Parker, afinal, termina seus dias como criminoso?

24 julho 2007

C’é l’Avanguardia a fumetti? (2)


Então, em um exercício rápido, vamos às histórias desta Canicola número dois:
“Brodo di niente” (algo como “Sopa de Nada”), de Andrea Bruno, tem uma arte-final interessante. Grandes manchas de nanquim, como se a página estivesse borrada, criam os desenhos. A atmosfera é etérea, o mundo parece acabar. O personagem passeia por um bordel, pela rua, por um sonho de cemitério.
“L’albero delle scimmie” (“A árvore dos macacos”), de Edo Chieregiato e Michelangelo Setola, é a mais “carina” de todas, diriam os italianos. Ou seja, a mais bonitinha. Não tanto pelos desenhos, sujos e guturais, que recordam animações de Beavis e Butt Head. Mais pela linearidade da história de uma família que passa férias na praia, em meio a uma greve de fabricantes de cigarro - o que torna tudo bem estressante para o pai.
“I Vicini di casa” (“Os vizinhos”), de Giacomo Monti, traz uma aventura cotidiana, por meio de quadros esparsos pela página, criando composições irregulares. Os desenhos, pequeninos dentro dos quadros, criam uma sensação de vazio e solidão. Um sujeito se depara com um gato morto na porta de casa e inicia laboriosa jornada para saber se ele é de alguém do prédio. O resultado é uma reação típica em nossos tempos. Me parece que esta melancólica história se baseia em fatos reais.
“Fas”, de Davide Catania, é uma história sem texto, desenhada com giz de cera, o que confere bastante expressividade à arte. Mais à frente, temos “Nefas”, do mesmo autor, e que parece conversar com a anterior.
“Baobab”, de Amanda Vähämäki, a mais bela história de Canicola, tem narrativa apátrida, fora do tempo e do espaço, beirando o surrealismo. Os dois personagens, duas crianças, são senhoras de um mundo irreal. Lá, desdenham de adultos, conversam com gatos, se relacionam. Parece um filme do Kurosawa.

“L’asino e la capra” (“O asno e a cabra”), de Giacomo Nanni, deve tratar-se de uma fábula moderna. Não encontrei nexo - o que talvez signifique que não era mesmo para ser encontrado - e a arte não me seduziu.
“Provino” (“Prova”), de Alessandro Tota, recorda Andrea Pazienza. O autor, provavelmente, é fã e discípulo. Acho, porém, que Pazienza construía histórias meio sem pé nem cabeça porque ele realmente não sabia que fim dar a elas. Era algo original e sincero, ao contrário da obra de Tota.
“Um nome stupido”, história soturna, em grandes quadros, que me lembrou o trabalho do Paulo Barbosa (que publica na Graffiti). Bonita, e encerra o volume.

Depois que fiz este texto, percebi - e acho que deve ser óbvio, ao menos para o público italiano - que as histórias tratam de um tema, ou mais precisamente, de um estado de espírito. Um ritmo. Todas elas têm um mesmo ritmo, uma mesma pulsação. A revista saiu, segundo indica o editorial, no outono. No outono, lentamente, caminhamos para a escuridão do inverno. Tudo a ver com as histórias desta revista. Será que este é o tema, portanto? Outono? Ou será que eu é que encontrei - inventei - esta similaridade casual?

Talvez, ainda, seja esta a “vanguarda” que nos perguntam os editores, no início da revista, em tom desafiador.

C’é l’Avanguardia a fumetti?



É a pergunta que a revista italiana Canicola faz, a seus leitores mas também a si própria, no editorial de seu número dois. Existe vanguarda nos quadrinhos?

Antes de mais nada, é preciso apresentar: a Canicola é uma revista em formato A4, capa em papel ap encorpado, em duas cores, e miolo em ap mais fino, preto e branco. Traz nove histórias, de autores e estilos bastante diferentes entre si. Tudo indica que é uma publicação independente (ocorre lá também).

Agora, à resposta: não sei se existe vanguarda em quadrinhos, até porque o termo (consultei a enciclopédia) tem um significado vasto e irregular. Mas a Canicola é, em todo o caso, uma revista bonita, séria, de quadrinhos elegantes e variados. Há, sim, muito experimentalismo - técnico e narrativo. O resultado é uma publicação bem fora dos padrões comerciais - o que lhe confere, creio, a classificação de “underground”. Acho, entretanto, que os autores - os nove - não têm lá grandes pretensões no sentido de alterar o curso da história - a vanguarda deveria ter, certo? As histórias apenas entretêm, divertem, passam o tempo. Algumas fascinam, pelo acabamento apurado. Ok, de vez em quando fazem refletir.

Pode-se conferir algo mais da revista no site www.canicola.net