Mostrando postagens com marcador arquetipos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arquetipos. Mostrar todas as postagens

06 maio 2008

Arquetipos e grafite: a suástica - 2

Quero registrar aqui mais alguns exemplos de suásticas grafitadas para reforçar o argumento de que alguns signos empregados no grafite permanecem inalterados ao longo da história. Esta constatação reforça a tese do caráter atemporal das inscrições de rua apresentada aqui e no Guia Ilustrado de Grafiti e Quadrinhos.

Nestes dois casos, a hipótese de não haver uma relação direta com o nazismo é reforçada pelo fato destas suásticas serem dextrógiras (com rotação para direita), ao contrário da versão levógira empregada na Alemanha. Curiosamente a primeira foto foi tirada em Belo Horizonte, na Av. Silviano Brandão, ao lado do outro exemplo reportado aqui, e compõe a grafía de uma letra N.

Esta terceira imagem apresenta outra anomalia: o braço que aponta para baixo é constituído por três elementos, um a mais do que o normal. O elemento acaba por conferir a impressão de um movimento inverso ao sugerido por esta espiral levógira.

Estes dois exemplos, enfim, apresentam mais duas variantes do emprego da dupla espiral no braço horizontal da letra A. A dupla espiral, como vimos, era a base do significado da suástica na antiguidade e na idade média.

04 abril 2008

Arquetipos e grafite: a suástica

A suástica é um tipo particular de cruz (cruz gamada) presente nas representações gráficas do homem desde a antiguidade. Ela indica o movimento de rotação a partir de um centro imóvel, remete à fundação das cidades e é associada a figuras como o labirinto e a espiral - principalmente a espiral dupla. Nas pinturas rupestres já está presente por volta de 6000 aC nas inscrições dos Camuni, associada a símbolos astrológicos:

A espiral pode ser dextrógira ou levógira, ou seja, pode rodar para direita (neste caso é associada ao sol) ou para esquerda (associada a lua), como indicado nesta representação medieval inspirada na tradição hindu.

A suástica levógira é lembrada hoje negativamente por ter sido adotada como símbolo pelos nazistas, mas seu emprego, como vimos, é bem mais antigo e remete a percepção e representação gráfica de fenómenos da natureza.
Dentro da ideia do graffiti como prática atemporal que emprega signos universais em contextos distintos ao longo da história, a suástica aparece então como recurso gráfico para enfeitar, por exemplo, o braço horizontal das letras e criar a impressão de movimento:

Nestes exemplos é mais evidente a relação do elemento horizontal gamado com a dupla espiral.

No caso abaixo, registrado em Belo Horizonte, uma suástica complementa uma letra 'M'. Pelo contexto não parece que o autor tenha tido a intenção de fazer apologia ao nazismo. É possível que o símbolo tenha sido empregado apenas como artifício gráfico ou por remeter a algo condenado pela sociedade, reforçando então o caráter depredatório da pichação.

De uma maneira geral a suástica e o braço gamado pertencem a uma fase recente da pichação. Os pichadores parecem hoje mais preocupados com a estética das letras - que deixaram inclusive de serem herméticas e ficaram mais inteligíveis para os leigos - e acrescentam símbolos e recursos gráficos singelos que revelam a influência do grafite (se é que realmente há uma diferencia entre os dois). Mesmo assim as formas da pichação continuam mais próximas da escrita e da abstracção dos signos que do desenho propriamente dito, tendência esta cada vez mais acentuada no graffiti contemporâneo se comparado ao dos anos oitenta.

30 março 2008

Arquetipos e graffiti

A idéia de uma atemporalidade dos temas e formas do graffiti surgiu na época da redação do Guia, quando com Pedro Portella constatamos a semelhança entre as vulvas documentadas por Leroi Gourhan nas pinturas dos caçadores do paleolítico e os grafites fotografados por Brassai em Paris no começo de 1900.

Acima: signos de vulvas inventariados por L. Gourhan. Os exemplos A1 e C (grão de café) foram registrados por Brassi nas fotografias ao lado.

Esta repetição já tinha sido evidenciada por Matisse num texto reportado no Guia pelo próprio Pedro:
  1. Ao examinar os grafites que mostram o sexo feminino (de forma simplificada) ele diz: “Desde os tempos mais antigos, ele é representado mais ou menos da mesma maneira: um ‘grão de café’... Conhece a zona de prostituição de Toulon? Esse sinal podia ser visto em toda parte nos muros. E cada prostíbulo trazia como insígnia este ‘grão de café’... ” BRASSAÏ, Georges. Conversas com Picasso. São Paulo: Cosac e Naify, 2000
Para nos esta constatação é particularmente interessante pois aproxima o grafite das práticas de culturas pré-modernas como as contempladas por Mircea Eliade no 'Mito do Eterno Retorno'. Estas culturas se caracterizam por uma concepção circular do tempo, distinta da noção de uma história 'linear' típica da cultura ocidental. A repetição de gestos paradigmáticos, ou seja, produzidos no começo dos tempos por um deus, herói ou ancestral, tem a função de anular o tempo entre quem realizou e quem realiza uma ação, fazendo com que a mesma se torne sagrada. Segundo Eliade, "para o homem arcaico a realidade é uma função da imitação de um arquétipo celestial" (Eliade, Mircea. Mito do eterno retorno. São Paulo: Mercuryo, 1992.). A prática das inscrições de rua e sua perpetuação ao longo do tempo, portanto, adquire outro valor, mesmo se acharmos que o caráter sagrado desta prática hoje se perdeu ou não é intencional (constatação da qual até certo ponto discordamos, como evidenciado no texto 'pichação e magia' publicado aqui). O que pretendo fazer, a seguir, é trazer mais exemplos de arquétipos presentes nas inscrições de rua, principalmente nas pichações.