30 agosto 2007

Identidade e ritos de passagem


Xamã com disfarce animal da gruta de Arriége (FR). Desenho de Didier Comés

Recentemente foi convidado para coordenar as oficinas de artes plásticas do Programa Para Jovens da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Aí vai minhas primeiras considerações sobre o projeto:

Este ano o percurso temático das oficinas de artes plásticas do PJ deve abranger identidade, medo e prazer. O conceito de identidade, ponto de partida deste itinerário, mudou radicalmente ao longo da história:
"Um homem do século XVI ou XVII ficaria espantado com as exigências de identidade a que nós submetemos com naturalidade. Assim que nossa criança começa a falar, ensinamos-lhes seu nome, o nome dos seus pais e sua idade. Ficamos muito orgulhosos quando Paulinho, ao ser perguntado sobre sua idade, responde corretamente que tem dois anos e meio. De fato, sentimos que é importante que Paulinho não erre: que seria dele se esquecesse sua idade? Na savana africana a idade é ainda uma noção bastante obscura, algo não tão importante a ponto de não poder ser esquecido. Mas em nossas civilizações técnicas, como poderíamos esquecer a data exata de nosso nascimento, (...) se a cada requerimento (...) é sempre preciso recordá-la. Paulinho dará sua idade na escola e logo sará Paulinho N. da turma x. (...) Na idade média o primeiro nome já fora considerado uma designação muito imprecisa, e fui necessário completá-lo por um sobrenome de família, muitas vezes um nome de lugar. O nome pertence ao mundo da fantasia, enquanto o sobrenome pertence ao mundo da tradição. A idade, quantidade legalmente mensurável com uma precisão quase de horas, é produto de um outro mundo, o da exatidão e do número."
Philippe Ariès em História Social da Criança e da família.
Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1981


Este texto foi escrito originalmente nos anos setenta. Hoje deveríamos acrescentar às coordenadas civis de um indivíduo outros números: CPF, INSS, título de eleitor, telefone, celular, sem falar de endereço, e-mail, conta bancária e respectivas senhas... (Não é de se surpreender que a escrita cuneiforme tenha sido inventada pelos sumérios com fins burocráticos)! Se todos estes números contribuem para identificar o cidadão, pouco esclarecem sobre a essência de cada um.

Os jovens que participam das oficinas encontram-se justamente numa fase de construção de identidade que deveria levá-los à inserção no universo dos adultos. Antigamente, mas nem tanto, esta passagem era marcada por rituais que envolviam toda a comunidade e comportavam a ruptura com a referência materna. Durante estes ritos eram utilizadas práticas como jejum, retiro, circuncisão e diversos processos que visavam levar o indivíduo a uma outra percepção de si mesmo e do mundo.

Na nossa sociedade estes ritos desapareceram. Com a escola obrigatória até os dezoito anos o período antigamente definido como infância - idade destinada a uma aprendizagem lúdica - foi valorizado e prolongado. No final deste período, porém, o jovem que não tem a ocasião de realizar uma viagem de mochila ou que não entra para o serviço militar terá menos chances de vivenciar um processo similar àquele proposto nos ritos de passagem, podendo eventualmente buscar situações -inclusive marginais- que atendam à mesma finalidade.

As oficinas de arte do PJ podem desempenhar uma função importante neste sentido, proporcionando experiências sensoriais voltadas para o auto-conhecimento que extrapolem a percepção quotidiana da realidade para que o participante possa descobrir no próprio microcosmo recursos que irão auxiliá-lo na vida.

2 comentários:

cristina disse...

Adorei a matéria,parabens.
Gostaria de receber mais informações, se possível, até dicas de bibliografias sobre o tema, estou tentando escrever sobre ritos de passagem na literatura

Piero disse...

Obrigado Cristina, algumas informações sobre este assunto você pode encontrar nos dois textos do Guia Ilustrado de Graffiti e Quadrinhos publicados no site da graffiti (Os caçadores e Uma cosmogênese dos signos): http://www.graffiti76.com/_guia.html e http://www.graffiti76.com/guia_1_2.html
Umas boa leituras podem ser:
Eliade, Mircea. Mito do eterno retorno. São Paulo: Mercuryo, 1992.
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
Literatura sobre o assunto neste momento n lembro nada, mas nos quadrinhos você pode procurar 'Livros da Magia' de Neil Gaiman, excelente leitura rica em referências...